Maria Ivone Vairinho e Poetas Amigos

Setembro 13 2009

 

Eu queria tanto … que este mundo fosse
Ai como a festa linda desta aldeia:
- Tirinhos?! A brincar e acabou-se…
De músicas e luz a rua cheia!
 
Da gente que a alegria à terra trouxe,
Ser um abraço o fogo que incendeia!
Fumo só de farturas, e assim doce
O ar que se respira e nos enleia!
 
Batalhas só de risos e flores!
Marchar?! – na procissão com os andores!
Viver como quem dança – em harmonia!
 
E eu, alto, nos céus, tremeluzindo,
Um foguete de lágrimas caindo…
Embelezando a noite à romaria
 
 
publicado por milualves às 19:26

Setembro 13 2009

 

Sou do tempo em que a charneca
Morta à sede, a pobrezinha,
Era só cardos e pedras,
Nem crescia erva daninha
 
                                      Sou do tempo, sou do tempo,
                                      Que a charneca mata a sede,
                                      Há barragens e canais
                                      E o Alentejo é mais verde.
 
Sou do tempo em que a charneca
Só dava luta e desgosto,
Tinha água só das lágrimas
Que caíam do meu rosto.
 
                                     Sou do tempo, sou do tempo,
                                     Que outras coisas vejo enfim,
                                     A charneca já dá fruto,
                                     Já tem hortas e jardim.
 
Sou do tempo em que a charneca
De crosta ao sol a estalar,
Só me fazia tristeza
E vontade de chorar.
 
                                    Sou do tempo, sou do tempo,
                                    Da charneca a florir,
                                    E o nosso Alentejo aprende…
                                    Vai aprendendo a sorrir.
 
Sou do tempo em que a charneca
Para seu e nosso mal,
Era tratada e chamada
“Deserto de Portugal”.
 
                                      Sou do tempo, sou do tempo,
                                      Doutro serei afinal,
                                      Nosso Alentejo hei-de ver
                                      Oásis de Portugal.
 
publicado por milualves às 19:19

Setembro 13 2009

Serei como a papoila num trigal

Na planície além da minha terra?!
Papoila que na sua graça encerra
Uma sina tremenda e fatal…
 
Vermelha e linda a cor, mas afinal
Sua raiz que pelo chão se enterra,
Desafia a seara e lhe faz guerra
Se transformando assim em dor e mal?
 
Será que a natureza em seus disfarces
A tudo e todos deu as duas faces,
- mistério que ninguém mais adivinha?!
 
Papoila! – dois destinos numa flor:
- onde se colhe e se guarda por amor,
- ou se destrói por ser erva daninha…
publicado por milualves às 19:16

Setembro 13 2009

Meus olhos choraram tanto

De tanta tristeza ver,
Que mesmo já seco o pranto
Caem lágrimas sem querer!
 
Tanto já me magoaram
Certas palavras – punhais!
Que os meus ouvidos fecharam
Só p’ra não as ouvir mais!
 
A minha pobre garganta
Calejou p’ra não gritar,
Triste, agora já nem canta
E até lhe custa a falar!
 
Tantos amargos que outrora
Me serviram como “entrada”,
Que tudo o que provo agora
Mesmo bom não sabe a nada!
 
Minha pele de tão crestada
Pelo tempo e pela dor,
Ai de mim, não sente nada
Nem lembra mais do amor!
 
Até rosas me picaram
Deixando a minh’alma em ferida,
E os meus sentidos negaram
Toda a essência da vida!
publicado por milualves às 19:11

Setembro 13 2009

 

 
É lá onde o sol desce a violar
A terra provocante de nudez,
Que emprenha uma e outra e outra vez
De sonhos, que já cansa de abortar…
 
É lá onde a lonjura por lavrar
Nem sombras a dividem lés-a-lés…
Só a noite a parcela a faz mercês
Erguendo muros brancos de luar!
 
É lá onde se chora de cantiga
No embalar dolente a dor antiga
Que, desperta, se agita e faz ruim…
 
Onde há suor em bagas pela eira
E esp´ranças crepitando na lareira
- o Alentejo é lá…e é em MIM!
 
publicado por milualves às 18:47

Setembro 13 2009

 

Figurinhas que se agitam graciosas
Entre o trigo já maduro a ondular,
Com seus doirados chapéus
De abas voltadas aos céus
Lembram lindas borboletas a voar.
 
E se alguém passa e atira um “Salve-as Deus!
Há franqueza no sorriso e no olhar,
Enquanto ao som de cantigas
Abraçam molhos de espigas
E a foice vai ceifando sem parar.
 
Ceifeira,
Não ceifes assim à toa…
Se a seara não está boa
Deixa-a na terra ficar!
 
Ceifeira,
Vê bem onde a foice pões
Que há searas de ilusões
‘inda verdes pra ceifar…
 
Como o trigo a seu tempo é ceifado,
Pelos campos desta vida, é bem de ver,
Toda a fruta sazonada
Precisa ser apanhada
Muito antes de secar e se perder…
 
E as ceifeiras vão ceifando e vão contando
Uma história, para animar, dita a preceito…
Olham-se as moças coradas,
Sobem ao ar gargalhadas,
E a foice ceifa tudo, ceifa a eito.
 
                       Ceifeira,
Não ceifes assim à toa…
Se a seara não está boa
Deixa-a na terra ficar!
 
Ceifeira,
Vê bem onde a foice pões
Que há searas de ilusões
‘inda verdes pra ceifar…
publicado por milualves às 18:31

Setembro 13 2009

 

 
Meu terreiro velhinho, que saudade
Das tardes inocentes, das corridas
Jogando à “cabra-cega” às “escondidas”,
Num doce devaneio da tenra idade!
 
Meu terreiro velhinho que saudade
Das conversas ingénuas…divertidas…
Dos sonhos…das quimeras lá vividas
No breve despontar da mocidade!
 
Meu terreiro! P’ra quê tanta ilusão
Se além no velho Largo Casarão
Cada riso foi lágrima à partida!
 
Agora, neste “Jogo” que não finda,
Já não brinco, mas corro…corro ainda,
Num outro “Casarão” chamado VIDA!

 

 
publicado por milualves às 18:28

Setembro 12 2009

 

“Hoje há Pão Alentejano?...”
 
Esta frase tão ouvida
neste tom interrogado
não é sentença perdida
nem um pregão inventado,
 
nem dito voando à toa…
 
Oh senhores, mas quem diria
que eu ia ouvir isto um dia
aos balcões de Padaria
desta Moderna Lisboa?!
 
“Hoje há Pão Alentejano?!”
 
e se o empregado diz:
 
- “Olhe, acabou de chegar.”
 
ri a freguesa feliz
e estende o saco apressada
pois não vá ele acabar…
 
e pede firme, sem graças,
que não pode haver engano:
 
-“Ponha-me aí dez carcaças
e UM PÃO ALENTEJANO.”
 
Ai é vê-lo meus amigos,
este pão que era só nosso,
o nosso Bem de raiz,
sem pretensões, sem ganância,
 
-como ganhou importância.
-como ganhou um País.
 
Todos o querem agora,
por inteiro…uma fatia…
umas migalhas…um naco…
 
Pão nosso de toda a hora
que é farinha doutro saco.
 
Venham vê-lo na Taberna
ou no fundo duma Adega
como alegra o camponês:
 
-ensopa o copo de três
-abafa raios e coriscos
-faz de cama prós petiscos…
 
e aconchegada a barriga
logo a voz se faz cantiga,
põe-se o Sol, vai-se a fadiga
que a noite mal começou,
e…
 
                   “às quatro da madrugada
                   um passarinho cantou…”
 
Ó Pão do meu ALENTEJO
que bela lição tu deste
na tua nobre humildade,
e como tu aprendeste
a usar Fraternidade.?
 
E sem briga, e sem guerra,
sem essa confusão louca,
deste NOME à nossa terra,
levaste-a de boca em boca…
 
Pois também vai a Banquetes
e a solenes Beberetes
nas salas bem afamadas,
 
posto assim em pedacinhos,
feito “tapas” e “entradas”,
regado com os melhores vinhos.
 
é o mais requisitado,
pedido por encomenda,
e vai em naperons de renda
até à mão de Ministros.
 
E deu no goto a Estrangeiros
e a certos senhores bem vistos
que o acham uma riqueza
e o querem na sua mesa…
 
Não se recusa a ninguém,
dá-se a ricos, pobrezinhos,
a crianças e a velhinhos
e aos doentes também.
 
Pão de Paz! Pão de Alegria!
Pão de Amor! Pão de Verdade!
 
É como Nós neste Dia,
 
uma mistura sadia
de renovo e de saudade.
 
“Hoje há Pão Alentejano?.”
 
Esta frase tão ouvida
neste tom interrogado
não é sentença perdida
nem um pregão inventado.
 
Nem dito voando à toa…
 
Ó senhores, mas quem diria
que eu ia ouvir isto um dia
aos balcões da Padaria
desta Moderna Lisboa?.
 
Que vitória meus amigos,
 este Pão que era só nosso,
o nosso Bem de raiz,
sem pretensões, sem ganância,
 
-COMO GANHOU IMPORTANCIA.
- COMO GANHOU UM PAÍS
publicado por milualves às 18:29

Setembro 12 2009

 

 
Eu sou como a charneca na paisagem
Da minha terra quente, alentejana!
Um sabor agridoce nos irmana
No degustar de anseios e miragem…
 
Perdemos tantos sonhos na voragem
Dum tempo que promete…e só engana!
E esta longa sede alentejana
Crestou de solidão a nossa imagem!
 
Mas como tu, de lágrimas e ais,
Agora eu fiz barragens e canais
Ao longo da minh’alma assim dispersos…
 
Fechei numa lagoa a minha mágoa
E agora, como tu, já tenho água
P’ra regar os canteiros dos meus versos!
publicado por milualves às 18:25

Setembro 12 2009

 

Mote:
De meu pai herdei o dom e o desejo
Que me ensinou a escrever e a sonhar,
Com meus tios e minha mãe, no Alentejo,
Eu aprendi a sofrer…e a cantar…
 
 
Meditando, eu acredito que não minto
Nas loucas fantasias que antevejo,
E que para expressar isto que sinto,
De meu pai herdei o dom e o desejo.
 
Mesmo sem saber ler, sem ser Doutora,
A terra que não tinha onde estudar,
Odemira foi a sábia Professora
Que me ensinou a escrever e a sonhar…
 
Os versos que em menina lá escrevi,
Coisas boas e más qu’inda revejo,
São imagens e sons do que vivi
Com meus tios e minha mãe no Alentejo
 
Odemira, foi triste a emoção
Na hora de partir e te deixar,
Mas com o teu Passado por lição
Eu aprendi…a sofrer e a cantar…
 

 

 

publicado por milualves às 18:23

Este blogue está aberto aos co-autores e Poetas Amigos de Maria Ivone Vairinho
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